A história dos “Meraglim”, os espiões, é conhecida como um exemplo clássico da falta de fé na onipotência do Todo-Poderoso.
A Torá relata na Parashat Shlach Lecha que os espiões retornaram da Terra de Israel e relataram que a ela produzia frutos enormes e que até gigantes viviam nela.
Contudo, depois do que presenciaram, a maioria dos espiões não acreditaram que D-us concederia a vitória sobre os sete povos cananeus.
Isso é, na verdade, difícil de compreender, pois apenas cerca de quatorze meses antes os judeus haviam saído do Egito em meio a grandes prodígios.
E o que era o Egito daquele tempo?
O Egito era o império mais poderoso da época.
Em termos de organização, poder e força, os sete povos cananeus estavam muito abaixo do poder do Faraó e de seu exército.
Foco equivocado
Existem muitas explicações para essa falta de “bitachon”, confiança, em D-us.
Alguns veem nisso um exemplo típico de “foco equivocado”.
Certa vez, meu professor quis demonstrar isso de forma prática usando uma folha de papel em branco com um ponto preto. Ele nos testou em sala de aula. Éramos ainda jovens inexperientes e “caímos em sua armadilha”.
Ele perguntou: “O que vocês veem?”. Naturalmente, todos responderam que viam um ponto preto. Sua resposta foi certeira: “Que absurdo! Isto é uma folha branca. Por que vocês se concentram no ponto preto?”.
Os dez espiões queriam ver o que havia de errado em Israel.
Para onde quer que olhassem, viam apenas aspectos negativos: pessoas enormes e assustadoramente fortes, fortalezas inexpugnáveis e frutos desproporcionalmente grandes.
Eles também observaram que muitas pessoas morriam. Havia funerais gigantescos.
D-us havia permitido que isso acontecesse para que os cananeus estivessem ocupados com o luto por seus parentes e “não percebessem” a presença dos espiões.
“É uma Terra que devora seus habitantes”
Os espiões afirmaram: “É uma Terra que devora os seus habitantes” (Bamidbar 13:32).
Caleb e Josué olharam ao redor e viram apenas uma Terra onde corriam “leite e mel”. Ambos, Caleb e Josué, eram defensores de Israel e foram os únicos autorizados a entrar na Terra Prometida.
A lição dessa explicação é simples: o copo está sempre meio cheio, nunca meio vazio. Procure sempre enxergar o lado positivo da sua vida.
Contudo, permanece a pergunta: por que os dez “maus” espiões olharam tudo de forma tão negativa? Todos compreendem que isso estava errado.
A santidade especial de Israel não foi reconhecida
Seu olhar negativo brotava de uma percepção interior equivocada.
Eles não compreendiam as forças especiais da Terra de Israel “em sua conexão” com o povo judeu. O único povo do mundo que possui uma ligação clara e única com uma determinada Terra é o povo judeu.
Nós só podemos florescer plenamente em Israel.
Israel não floresce sem nós, e nós também não podemos desenvolver todo o nosso potencial fora de Israel.
Saudade constante do retorno
Por isso, apesar de dois mil anos de exílio, continuamos a rezar incessantemente pelo retorno à Terra Santa. O atual “retorno dos exilados” é a melhor prova dos tempos messiânicos que se aproximam.
Não é por acaso que a Terra de Israel é descrita da seguinte maneira (Devarim/Deuteronômio 11:12): “É uma Terra da qual cuida o Senhor teu D-us; os olhos do Senhor teu D-us estão continuamente sobre ela, desde o princípio do ano até o fim do ano”.
Israel encontra-se diretamente sob a supervisão constante de D-us. Ali podemos nos dedicar simultaneamente aos projetos terrenos e materiais, ao mesmo tempo que crescemos e florescemos espiritualmente.
Potencial de crescimento
Os espiões não perceberam isso.
Eles viram apenas o extraordinário desenvolvimento físico de Canaã naquela época: gigantes, frutos imensos e cidades colossais.
Entretanto, o fantástico e poderoso potencial de “crescimento espiritual” da Terra Santa permaneceu oculto para eles.
Esqueceram-se totalmente da Promessa Divina de que aquela seria sua única pátria capaz de se desenvolver plenamente.
Pensavam que seriam mais bem-sucedidos espiritualmente no deserto, longe do grande mundo e de seu fluxo incessante de tentações, mas isso é incorreto e contrário à visão judaica.
Devemos estar firmemente inseridos no mundo e, ainda assim, permanecer fiéis e devotos.
Faça a verdade porque ela é a verdade
O mais elevado nível de serviço a D-us consiste em: “Fazer a verdade porque ela é a verdade”.
Quem alcança esse nível espiritual não pensa em tentações, dificuldades ou vantagens pessoais. Sua única preocupação é cumprir a vontade de D-us.
Josué e Caleb tinham em mente apenas a Intenção Divina. Essa é a atitude ideal.
Como seres humanos, somos compostos de corpo e alma. Evidentemente, o Todo-Poderoso deseja que nos desenvolvamos plenamente, tanto no aspecto físico quanto no espiritual.
Para o povo judeu, isso era e continua sendo possível somente em Israel.
Os maus espiões e todos os que simpatizaram com eles morreram no deserto. Seu pecado consistiu em não compreender que o estabelecimento e a ocupação de Israel constituíam o Objetivo Divino e que era para esse propósito que deveriam avançar.
